|
Longe dos maus-tratos
Estudo revela que violência doméstica faz criança optar pela vida nas ruas
Cena comum nos países do terceiro mundo, a realidade dos meninos de rua é um fenômeno cada vez mais globalizado e atinge megalópoles de países desenvolvidos. Ao contrário das previsões tradicionais, a violência doméstica - e não as condições socioeconômicas - desponta como o principal motivo que leva os menores, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, a sair de casa em busca de uma vida mais tranqüila, longe dos conflitos familiares.
A conclusão é do antropólogo Benedito Rodrigues dos Santos, que realizou uma pesquisa comparativa entre meninos de rua de São Paulo e de Nova York. Os resultados foram foram reunidos na tese de doutorado Crianças ingovernáveis: fugitivos de casa, moradores de Rua e meninos de rua de Nova York e São Paulo, que o pesquisador defendeu na Universidade de Berkeley, na Califórnia. - Os meninos de rua brasileiros e americanos carregam muitas semelhanças na forma como fogem de casa e como se mantêm nas ruas - afirma Santos, que é professor da Universidade Católica de Goiás, um dos fundadores do Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua (MNMMR) e consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância e a Adolescência (Unicef).
Em entrevistas com 110 ex-meninos de rua, 57 em Nova York e 53 em São Paulo, Benedito constatou que mesmo em países com padrões de desenvolvimento diversos, a juventude das ruas tem em comum histórias dramáticas sobre a principal razão que a empurrou para fora de casa.
- Eu cresci convivendo com a violência e o terror, longe de qualquer estrutura familiar - relembra uma ex-menina de rua de Nova York e que hoje ganha a vida como profissional do sexo.
Descrições semelhantes foram verificadas pelas ruas de São Paulo. - Aqui nós sofremos muita violência em casa. Algumas crianças gostam das ruas porque querem a liberdade. Outras, porque são violentadas pelos pais - relatou Jefferson, 24 anos.
Entre os 57 entrevistados em Nova York, Benedito apontou que 50% vinham de famílias recasadas e 10% de lares chefiados por um dos pais, na maioria das vezes pela mãe. Em São Paulo, esse índice era de 33% e 22%, respectivamente, o que mostra que no Brasil é maior o número de meninos que abandonam os lares comandados por um dos pais.
- Com o aumento das separações e do número de mães solteiras, as mulheres vêm assumindo também o papel de pai, e isso gera conflitos. Segundo a ideologia moderna, a mãe é a responsável pelo amor incondicional ao filho. Quando ele percebe que não recebe o afeto como esperava, se sente traído e a fuga, pode até ser vista como forma de cobrança - explica Benedito.
O mesmo cenário se repete nas famílias recasadas, em que as crianças reclamam da distribuição desigual de afeto entre os irmãos e os filhos do cônjuge da mãe e do pai. Nos EUA, as crianças queixaram-se da partilha de presentes e da renda familiar. Lá, 50% disseram ter deixado suas casas devido à violência doméstica e 7% por problemas econômicos. No Brasil, 60% admitiram ter saído por problemas afetivos e os 40% que afirmaram ter saído de casa por problemas econômicos, apontaram os conflitos familiares como fator determinante.
- Posso afirmar com muita segurança que não é a pobreza que leva as crianças às ruas - afirma Santos, reconhecendo que as dificuldades econômicas podem conduzir menores à busca do trabalho informal, mas constata que 80% das crianças trabalhadoras não se tornam moradores das ruas.
Entre as diferenças, o antropólogo aponta que os meninos de rua americanos são mais velhos e institucionalizados que os brasileiros, devido à falta de tolerância das autoridades dos EUA quanto à sua presença pelas ruas. Além disso, de acordo com a lei americana, é crime sair de casa antes dos 18 anos.
Por isso, encontram-se espalhadas pelo país várias alternativas para os jovens que não desejam mais permanecer em casa. Nos EUA, há desde o pagamento de US$ 600 mensais para os casais que desejam tutelar um menor, até o abrigo oferecido por grandes instituições, com espaço para mais de 40 mil menores.
Segundo Benedito, esses locais são como a Febem, porém com muito mais recursos e infraestrutura.
- Nesses locais eles desenvolvem atividades pedagógicas, lavam e trocam de roupa - conta Benedito, ponderando que o trabalho metodológico e psicológico dessas entidades é muito criticado, principalmente em virtude do distanciamento que há entre educadores e menores.
- Eles transgridem muito as regras, como os daqui, e o trabalho dos educadores é avaliado e limitado devido à paranóia americana com os problemas de denúncia de abuso sexual.
Benedito também espantou-se em constatar que mesmo utilizando critérios diferentes, o número de meninos de rua em São Paulo dormindo pelas ruas é equivalente ao de Nova York : 900. No que se refere à quantidade de meninos perambulando pelas ruas paulistanas durante o dia - a maioria deles, segundo Benedito praticando trabalho infantil - ultrapassa em 3 mil o número de meninos na mesma situação em Times Square.
|