Os meninos de rua nos davam pena. Hoje nos dão medo. Olhamos os pobrezinhos parados no sinal fazendo um tristíssimo malabarismo com três bolinhas e nosso sentimento é de culpa, pena, indignação. Então, damos uma esmola que nos absolva ou pensamos que um dia poderão nos assaltar. Os meninos de rua do Rio são a ponta de um erro que percorre todo o estado e o município, todas as instâncias da incompetência, da falta de vontade política, do populismo sórdido que é nossa tradição. Por isso, as autoridades sem rumo querem tirá-los de nosso ângulo de visão, querem impedir que o sangue apareça na chaga, querem fazer deles um álbum de figurinhas para o futuro, fotografando-os, fichando-os preventivamente, como naquele filme do Spielberg, “Minority report”, com a polícia adivinhando quem iria no futuro cometer crimes. É um fichamento preventivo, talvez já influência dos tempos de Bush, num estado infestado de ladrões de colarinho branco onde só com o dinheiro tirado do propinoduto, ou do INSS roubado ou o dinheiro que iria para os 40 ladrões daria para fazer dezenas de escolas ou algo parecido com os Cieps, sem os defeitos dos antigos, mas que foram uma coisa imaginosa e generosa feita por Brizola e Darcy. “As crianças voltam para as ruas”, dizem os burocratas. Claro, recolhidos em Febems ou abrigos sujos ou obrigados a voltar ao terrível astral de suas favelas, entre pais desesperados, claro que é muito melhor andar na praia, com suas bermudas caídas até os rins, uniforme de todos os meninos pobres da cidade.
As pessoas se inquietam com as crianças andando em bandos. E elas, mesmo quando não partem para assaltar turistas, sentem nosso temor e cultivam um jeito vagamente orgulhoso de sua condição de “perigosos”, eles que, antes, eram invisíveis a todos nós. Hoje, se orgulham de nosso medo e assim constroem uma estranha cidadania.
Diante desse espetáculo triste e vergonhoso, o que acontece conosco, os que comem e dormem e têm carros? Partimos para os adjetivos, abstrações, para os brados de alerta, para os “bastas”, para um vago desejo de reforma que ninguém sabe qual é.
Todo nosso pensamento progressista ou reformista é antigo, porque é em bloco, é generalizante: “Precisamos acabar com a pobreza , com o crime em si, com o tráfico em bloco”. Tudo é assim; nada é prático, possível, imediato. Nunca se vê um plano concreto, real: “Vamos nos concentrar nos meninos de rua, pronto! Vamos fazer tal projeto possível. Não vamos bani-los ou fichá-los; vamos protegê-los nem que seja provisoriamente, em lugares decentes...” Nunca se faz isso. Então, o sonho com o “geral” impede o “particular” e nada se faz. Em me lembro horrorizado que, quando o Collor tentou fazer os Ciacs (acho que era esse o nome), uma das coisas que impediram a realização desses centros semelhantes aos do Brizola é que as empreiteiras não se interessavam por obras baratas. Os projetos tinham de ser caros para serem feitos, como as obras do Maluf: ou se fazem viadutos imensos superfaturados ou casinhas de areia que se desmancham em pouco tempo. Roubos de duas pontas, ou pelo barato ou pelo caro. Não é possível que não haja uma terceira possibilidade, gestos imaginosos, soluções rápidas.
Não é possível que não se possam levantar verbas entre o estado, município e empresas para realmente criar estas soluções. Seria um treinamento inicial para a conscientização desta sociedade “indignada” que pendura faixas de “bastas” em fachadas de apartamentos de um milhão de dólares. “Basta” o quê? “Basta” de amolação? Basta de medo? Basta de ver miséria nas ruas? Com quem falam os “bastas”? Com a polícia, com o Garotinho, com Deus, com quem? Por que não falam “basta!” para si mesmos, abastados, todos enfiados em seus cafofos de luxo, pensando em tradicionais termos ibéricos de que os poderes são os únicos responsáveis por tudo. E falam “basta!” como se eles não fossem também responsáveis por esse horror, eles, os bens de vida que nunca se interessaram em urbanizar favelas ou proteger os desgraçados. Há 40 anos, havia jeito. Hoje, já era. Claro que sei que há coisa sérias e novas feitas nos favelas-bairro, por exemplo; claro que sei que há ONGs legais. Quem sou eu, que pouco faço além de escrever e falar? Mas não podemos continuar como marias-antonietas apavoradas, sempre à espera de que as coisas melhorem por um milagre qualquer.
O pesadelo carioca cada vez mais não tem uma solução tradicional. Cada vez mais a antiga “cidade partida” será uma “cidade tomada”, sitiada pela miséria e a violência, porque continuamos a achar que a solução seria resolver isso ou aquilo no mundo da própria miséria. Não. A solução tem de passar pela reforma profunda dos métodos, do ataque ao problema, uma reforma em nossa mentalidade e burocracia. Nosso drama não é ausência de solução. É que não entendemos o problema.