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Pesquisa internacional COAV traça mapa da violência armada em dez países
Milhares de jovens fora da escola, perto das drogas e cada dia mais longe de uma perspectiva de futuro. Crianças e adolescentes de até 11 anos pegando em armamento pesado para defender território em confrontos com comandos da polícia e grupos rivais. Tudo isso com participação direta ou indireta de policiais corruptos e conivência de políticos. A combinação desses fatores com planos de repressão em massa, falta de planejamento familiar e Estado ausente, fez disparar as taxas de violência nos últimos anos em pelo menos dez países de quatro continentes. Em alguns deles, o número de mortos por armas de fogo já é maior até do que de países oficialmente em guerra. E pior: grande parte das vítimas são jovens com menos de 18 anos.
Esse cenário desafiador é analisado com profundidade e pesquisa detalhada no livro ‘Nem Guerra nem Paz – Comparações internacionais de crianças e jovens envolvidos em violência armada organizada’ (342 páginas, Editora 7 Letras), que redefine os parâmetros tradicionais do que é conflito armado, delinqüência e crime. Escrito originalmente em inglês, o estudo terá também versões em espanhol e português, previstas para junho. O site COAV disponibiliza com exclusividade nesta quarta-feira, 25, a versão on-line da pesquisa nas três línguas.
“Não é delinqüente, não é criança-soldado, mas é barra pesada e está acontecendo em vários lugares do mundo”, resume o antropólogo inglês Luke Dowdney, autor e organizador do estudo, uma espécie de continuação internacional do seu primeiro livro ‘Crianças do Tráfico’, sobre jovens envolvidos com as facções de drogas no Rio de Janeiro. “Pobreza, marginalização, armas pesadas, cocaína e políticas de repressão fazem parte do cotidiano hoje de várias cidades do mundo”.
Para realizar o estudo, financiado pela Save the Children Sweden, Ford Foundation, DFID e World Vision, e coordenado pelo Viva Rio e COAV, Luke Dowdney contou com uma equipe de pesquisadores de instituições locais espalhados por favelas, subúrbios e bairros pobres de doze países (Honduras e Haiti, que também deveriam ter capítulos exclusivos, não reuniram dados suficientes e acabaram não entrando no livro). O objetivo da pesquisa era conhecer de perto quem são as crianças e adolescentes envolvidos com a violência armada no mundo; e desvendar os motivos que os levaram a pegar em revólveres e fuzis para lutar contra outros jovens tão desesperados quanto eles por um futuro melhor.
Depois de doze meses de pesquisa, Luke reuniu informações inéditas tendo como base 120 entrevistas com membros de gangues como Comando Vermelho, no Rio, Mara Salvatrucha, em El Salvador, Bloques Cacique Nutibara, em Medelín, Egbesu Boys, na Nigéria, e The Black Gangster Disciples, em Chicago.
“Existem dezenas de fatores que explicam porque os jovens se envolvem com a violência armada, mas outros tantos, às vezes até mais fortes, que explicam porque eles não se envolvem. E para cada fator de risco nós temos que descobrir um fator de proteção. A pesquisa agora nos dá uma posição muito mais segura para pensar em soluções”, afirma.
“Nem Guerra nem Paz” é dividido em três partes: a primeira com comparações entre os grupos investigados em cada país; a segunda descreve a participação de crianças e adolescentes nestes grupos; e a terceira compara políticas públicas e projetos da sociedade civil; concluindo com recomendações sobre como tratar o problema. O livro tem ainda capítulos individuais para cada país (os documentos na íntegra também estão disponíveis com exclusividade no site COAV).
Ler aqui a primeira parte da entrevista ao COAV, Luke Dowdney fala sobre os bastidores do estudo e as semelhanças entre os grupos pesquisados.
COAV - Quais as informações que mais surpreenderam você durante a pesquisa?
LD - Recebemos um volume tão grande de informações que fica difícil destacar uma. Mas tem um dado sim, não que tenha me surpreendido, apenas reforçou coisas que eu já estava pensando. A idade média de entrada dos jovens em grupos armados nos dez países pesquisados é de 13 anos e 6 meses. Isso é a média! Quer dizer que tem muita criança com apenas 11 anos com arma na mão no mundo. Na grande maioria dos países elas já recebem um revólver ou fuzil assim que entram no grupo. Até agora sempre se achou que o foco da violência armada estava na faixa entre 18 e 24 anos. Mas percebemos que a violência é enorme também entre 15 e 18 anos. No Equador, dos 12 jovens entrevistados para o livro, oito já haviam testemunhado algum colega do grupo matando outra pessoa e 5 já tinham matado pelo menos uma pessoa eles mesmos. Perdemos dois entrevistados durante a pesquisa. E com certeza dezenas de outros jovens morreram até o livro ficar pronto. Isso reflete toda a tragédia da situação. Os jovens estão matando, e morrendo também. E pior: estão se matando. E isso é um problema para a sociedade inteira.
Quais as semelhanças entre os grupos?
Todos os grupos que nós estudamos atuam em áreas determinadas, são grupos territoriais brigando entre si. Seja facção, pandilla, mara ... e a maior parte das vítimas são jovens que pertencem a outros grupos. Claro que eles são um perigo para a sociedade em algumas situações, mas acima de tudo são um perigo para eles mesmos. É importante destacar que a maioria dos jovens que morrem por arma de fogo no mundo são pobres. As estatísticas nos ajudam a compreender melhor onde está o foco do problema. Parece óbvio, mas isso não é feito.
Podemos dizer que essa pesquisa é uma “continuação internacional” do seu primeiro livro ‘Crianças do tráfico’?
Desde que eu comecei a escrever o ‘Crianças do Tráfico’, pensava que outras cidades do mundo deveriam ter problemas e desafios muito parecidos com os do Rio. Isso porque temos no Brasil os mesmos fatores econômicos, políticos e sociais que existem em outros países. Pobreza, marginalização, armas pesadas e cocaína fazem parte do cotidiano de várias cidades. E também as políticas de repressão policial. Tudo isso foi chave para chegarmos nessa situação em que vivemos hoje no mundo. Nove dos dez países pesquisados estão envolvidos com tráfico de drogas e todos são rota para o contrabando internacional de armas.
Como foi feita a escolha dos dez países que entraram na pesquisa?
Depois que terminamos o ‘Crianças do Tráfico’, mandamos e-mails para ONGs, universidades e instituições de várias partes do mundo perguntando se existia em seus países algo parecido com o cenário retratado no livro. Pedimos um texto de uma página e recebemos material do mundo inteiro, da Rússia, Iugoslávia, Irlanda do Norte, África do Sul ... Criamos então um comitê virtual com pessoas ligadas a ONU, UNICEF e outras instituições internacionais que trabalham com violência armada, e decidimos quais países eram mais interessantes para serem estudados. Levamos em conta também a questão dos parceiros locais, grupos, faculdades, e pesquisadores que têm acesso a trabalho de campo. Perdemos no decorrer da pesquisa dois países que entrariam no livro. Haiti porque o pesquisador foi ameaçado de morte. E Honduras porque não conseguimos entrevistas suficientes.
A pesquisa é reconhecidamente perigosa. Como foi feita a aproximação com os grupos armados? Você soube de alguma situação inusitada ou perigosa?
Tivemos um período de treinamento com todos os pesquisadores no Rio e isso foi fundamental para evitarmos problemas. Tínhamos algumas regras claras para todo mundo. Primeiro, as entrevistas deveriam ser feitas de uma forma que não colocasse nem o pesquisador e nem o jovem em risco. O pesquisador, claro, corria risco de estar numa determinada área, mas devia ter cuidado redobrado com a forma como fazia a aproximação com aquele grupo. Foi tudo muito negociado e tivemos a sorte de conseguir pessoas experientes em cada país. O John Hagedorn, por exemplo, tem 20 anos de experiência pesquisando gangues nos Estados Unidos. Em alguns lugares, como na Nigéria, os pesquisadores tiveram problemas porque os jovens queriam receber dinheiro para fazer as entrevistas. Isso foi resolvido no papo. Outra regra importante era procurar primeiro adultos daquela determinada gangue antes de chegar aos adolescentes. Ou seja, pedíamos autorização para o chefe ou líder da gangue, ou da mara ... não queríamos que o jovem ficasse numa posição difícil. As pesquisas, aliás, renderam os melhores dados do livro. Países como Nigéria e Filipinas têm pouquíssimas informações sobre jovens envolvidos em violência. Conseguimos no total 120 entrevistas nos dez países. Mas com certeza é sempre uma situação tensa.
Além dos onze países incluídos na pesquisa, quais outros passam pelo mesmo problema?
A América Central inteira convive atualmente com o problema das gangues. México, Guatemala, Caribe ...minha única dúvida é se os grupos de lá são tão organizados quanto em El Salvador, Equador e Colômbia por exemplo. Na Europa existem gangues, mas normalmente elas não usam armas de fogo. Isso por enquanto! As armas estão se espalhando pelo mundo inteiro com rapidez. Na verdade, o componente chave para termos esse cenário de violência armada organizada é mesmo a arma. A organização é importante para nós entendermos como os jovens trabalham dentro de uma estrutura. Mas se controlarmos a fabricação e o tráfico internacional de armas a situação com certeza vai melhorar. Temos também que atacar os problemas em nível local. Precisamos de projetos sociais que atuem diretamente com os jovens identificando fatores de risco, influências e contexto pessoal. Por isso a pesquisa é tão importante. Precisamos entender primeiro como esses grupos se organizam para depois tratar melhor o problema.
Na segunda parte da entrevista, Luke fala sobre corrupção policial, fatores de risco e aponta caminhos para que os projetos sociais sejam mais bem sucedidos.
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