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Jan 2005 | Jornal do Brasil | Vivian Rangel
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Cidade de Deus em pé-de-guerra

Moradores incendeiam dois ônibus depois de tiroteio em que policiais militares teriam baleado menor acusado de tráfico

 

No dia em que o Brasil se preparava para torcer para que o filme Cidade de Deus conquistasse o Oscar, moradores da favela viveram momentos de tensão e violência. Dois ônibus foram queimados e passageiros foram assaltados na manhã de ontem, em Jacarepaguá, em reação a uma operação policial que deixou dois menores baleado durante a madrugada.

O primeiro ônibus foi incendiado na Rua Edgard Werneck, em frente à entrada da Cidade de Deus. Os manifestantes atearam fogo em sofás e pneus e atiraram pedras nos passageiros. O ônibus placa LCJ 6559, da empresa Litoral Rio, que fazia a linha 600 (Saens Peña-Boiuna), transportava cerca de 40 pessoas. O incêndio destruiu o coletivo e atingiu um Santana, placa LJP 2486. José Roberto Andrade Afonso, 46 anos, um dos motoristas, ficou ferido e foi atendido no Hospital Miguel Couto. Os incendiários se aproveitaram do bloqueio da estrada para assaltar Edson de Souza Bonfim, 42 anos, que estava em seu carro, próximo ao ônibus. Eles levaram sua carteira com documentos, um relógio, um cordão de ouro e aproximadamente R$ 100.

O segundo incêndio ocorreu na Estrada dos Bandeirantes, no sentido Taquara-Recreio, em frente à Vila do Sapê, por volta das 8h30. Um ônibus da linha 747 (Madureira-Vargem Grande), placa LBT 1147, da empresa Santa Maria, foi invadido por cerca de 15 pessoas que atiraram pedras e depredaram o veículo. Os passageiros foram agredidos e empurrados para fora do ônibus. Maria da Glória, de 46 anos, que estava indo fazer compras com seu marido, Crispim Américo, de 61, teve sua bolsa roubada por um menino que aparentava ter 10 anos.

O grupo que rendeu os passageiros espalhou gasolina pelo veículo e chegou a jogar combustível no corpo do motorista, mas ele não foi queimado. A fiação dos postes do local foi atingida e parte da área ficou sem luz e telefone.

- As investigações estão sendo feitas e há suspeitas de que os incêndios tenham sido motivados pela troca de tiros com um menor, envolvido com drogas - afirmou o inspetor José de Almeida Filho, da 32ª DP (Jacarepaguá).

O tiroteio em que os menores foram atingidos ocorreu na madrugada de domingo. O adolescente X., de 16 anos, foi baleado e está internado no Hospital Lourenço Jorge. Segundo a polícia, X. tem três passagens pela 41ª DP por tráfico, porte de armas e depredação do patrimônio público. Ele seria fugitivo do Centro de Recurso Integrado de Atendimento ao Menor (Criam) de Santa Cruz. O outro menino, de 13 anos, foi vítima de uma bala perdida e está fora de perigo.

O ouvidor-chefe da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Pedro Montenegro, que coordenou uma comissão especial que veio ao Rio investigar casos de violência policial, afirmou que o episódio é emblemático e revela como é conduzida a política de segurança no Rio.

- Parece que a questão principal é se a pessoa é traficante ou não. Não se pensa em como a polícia agiu. Se for bandido, tudo bem. Se não for, muitas vezes os policiais forjam um auto de resistência - denuncia.

Segundo ele, manifestações enfurecidas das comunidades após ações da polícia são fruto do descrédito nas instituições estaduais, que não dariam ouvidos às denúncias desse grupo social. Para Montenegro, depredações como as de ontem, entretanto, também podem ser orquestradas pelo crime organizado. O secretário de Segurança Pública, Anthony Garotinho, foi convidado a comparecer à próxima reunião do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), no dia 16, em Brasília, para explicar por que alguns inquéritos em que PMs são acusados de violência estão emperrados.

Com Fábio Rego Barros, Michel Alecrim e Renata Leal

 

 
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