"All men who have achieved great things
have been great dreamers."
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4th July 2004 l  Unknown l O Globo

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Vida bruta, vida breve

Na noite de 6 de junho do ano passado, Diego Mendes Silva, de 23 anos, dirigia seu carro pela Rua Pernambuco, no Engenho de Dentro, quando se deparou com um “bonde” de traficantes. Diego era PM e por isso recebeu sentença de morte. Depois de o matarem, os bandidos pegaram sua arma e a descarregaram em seu corpo. Foram 32 tiros.

— Foi uma brutalidade — diz o pai de Diego, Maurício Mendes Silva. — Um único tiro já mata.

Uma pesquisa feita pelo GLOBO com base em atestados de óbito de 49.647 pessoas sepultadas ano passado em cemitérios do Rio — das quais 3.415 foram assassinadas — mostra que, como o jovem Diego, a maior parte das vítimas de violência (31,3%) tinha entre 18 e 24 anos e 60,4% não chegaram aos 35, metade da expectativa de vida do carioca, que é de 70 anos, segundo o Instituto Pereira Passos (IPP).

O levantamento confirma diagnóstico da Unesco de que o jovem é o maior alvo da violência. De acordo com a pesquisa do GLOBO, 94% das vítimas eram homens e 40,8% deixaram filhos, sendo a maioria menores (83%).

Diego deixou um menino de 4 anos que tem o nome do pai. Depois da morte do marido, a viúva, Érica de Souza Lopes Silva, de 23 anos, tenta reconstruir a vida com o filho num apartamento em Irajá:

— O Júnior era muito agarrado com o pai. No início, não queria ir à escola. Quando ia, chorava. Agora está melhor. Mas, de vez em quando, pergunta: “Mãe, cadê meu pai? Vamos lá pegar ele no quartel”.

A perversidade da violência faz chorar lado a lado famílias que parecem estar em campos opostos. Wallace, Eduardo, Júlio Cesar, José Manoel e Rodrigo jogavam dominó na praça principal do complexo de favelas do Caju, em 7 de janeiro, quando foram assassinados durante uma ação policial. Dos cinco, três deixaram filhos. Segundo parentes, eles tentaram alegar que eram estudantes, engraxates, trabalhadores. Em comum, além da amizade, tinham o perfil que os condenou à morte: jovens, homens, pobres e moradores de favela.

— Meu irmão era alto, mas tinha apenas 13 anos. Estudava em escola pública e trabalhava como engraxate para ajudar em casa. Ele foi arrastado por policiais na frente de várias pessoas. Pedia que fossem até nossa casa para provar sua inocência. Foi executado com tiros na cabeça — conta Elizabeth Maria de Souza, irmã de Wallace de Souza, de 13 anos, e coordenadora da Associação de Moradores do Parque Conquista, no Caju.

Apesar da repercussão, o caso não foi adiante e Elizabeth fundou, com parentes de outras vítimas, a Associação de Mães do Caju, que luta para levar à Justiça os policiais que mataram os jovens.

— Nenhum deles tinha antecedentes criminais. Não sossegaremos enquanto os criminosos não forem julgados — afirma Elizabeth.

Segundo ela, desde a morte do irmão, sua vida mudou completamente. Deixou o emprego fixo para lutar pelos direitos da família. Hoje vive com a ajuda de amigos e lava roupa para fora. A rotina do resto da família também foi alterada:

— Hoje temos medo de deixar as crianças brincarem lá fora. Como os assassinos estão soltos, temos receio de que a história se repita.

Dulcinéia Pereira da Silva, mãe de Júlio Cesar, também morto na chacina, contou que desde que seu filho morreu não consegue trabalhar. Ela não esquece a imagem do filho morto, como se fosse apenas uma baixa na guerra do tráfico.

— Eles estavam apenas brincando na praça e foram confundidos com olheiros do tráfico. Por quê? Só porque eram pobres?

Para o titular da 1 Vara da Infância e da Juventude, juiz Siro Darlan, a exclusão social é um dos principais multiplicadores de violência e a responsável direta pelo fato de o perfil das vítimas ser quase um retrato falado:

— Estamos numa sociedade excludente, que não deseja sistema de cotas para a educação, que não quer o jovem pobre no mercado de trabalho, que deixa esse jovem à mercê do narcotráfico e que deseja a redução da idade penal. Tudo isto é exclusão social. E a exclusão social tem no homicídio a sua expressão máxima.

A pesquisa


Para chegar ao número de 2.895 órfãos da violência no Rio, O GLOBO pesquisou, durante dois meses, 49.647 atestados de óbito de pessoas sepultadas ano passado em 16 dos 20 cemitérios da cidade. O levantamento incluiu os 13 administrados pela Santa Casa de Misericórdia, o do Catumbi e o Jardim da Saudade (dois). Este último não autorizou a consulta, mas informou os dados pedidos.

Foram analisados os óbitos por todas as causas (doenças, acidentes de trânsito, homicídios etc.) registrados na cidade do Rio, entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2003, e separados os casos de homicídio.

O atestado de óbito é um documento registrado em cartório e informa nome, idade, endereço e profissão da vítima; causa e local da morte e número de filhos maiores e menores.

O número de homicídios apurado na pesquisa (3.415) é inferior ao informado pela Secretaria de Segurança, pois não foram contabilizadas mortes por ação contundente — não seria possível distinguir, por exemplo, espancamentos de atropelamentos — ou por causa indeterminada. Pelos dados oficiais, ocorreram ano passado no Rio 2.574 homicídios dolosos, 798 autos de resistência (pessoas mortas supostamente em confronto com a polícia), 98 latrocínios e 913 encontros de cadáver, num total de 4.383 casos.

As entrevistas foram feitas com autorização das famílias e as fotos de crianças sempre na presença de um responsável.

Os cemitérios administrados pela Santa Casa são: Caju, São João Batista, Cacuia, Santa Cruz, Murundu, Campo Grande, Irajá, Ricardo de Albuquerque, Inhaúma, Pechincha, Guaratiba, Paquetá e Piabas.

 
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