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have been great dreamers."
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4th July 2004 l Unknown l O Globo

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Quando o destino é a cova rasa

Por eles, nem os sinos dobram. Última quinta-feira, 10h15m, Cemitério de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. O caminhão preto do Instituto Médico-Legal (IML) deixa mais seis corpos para o enterro que só terá coveiros no cortejo. O silêncio parece agravar ainda mais o abandono dessas pessoas que morreram sem conquistar em vida sequer o direito a um nome. Elas são identificadas por uma etiqueta com um número. De um total de 3.248 vítimas de violência sepultadas em 2003 nos 13 cemitérios da Santa Casa da Misericórdia no Rio, 509 foram enterradas como indigentes. Cerca de 95% eram homens.

As causas das mortes, descritas nos atestados de óbito, dão a medida da violência em que viviam: tiros, carbonizações, decapitações, dilacerações. Na vala comum dos indigentes, são enterrados mocinhos e bandidos. Segundo o sociólogo Michel Misse, especialista em segurança pública, a crueldade na maioria dos casos é uma espécie de código de poder.

— O assassino, nesses casos, está enviando uma mensagem. A moeda nesse varejo é a violência. Eles não podem recorrer à lei para manter seus domínios, então recorrem à violência. Você é cruel para se impor. Neste meio, você é monstruoso para que ninguém seja monstruoso com você — teoriza.

Segundo a administração do Cemitério de Santa Cruz, quase mil indigentes (mortos de forma violenta ou não) foram enterrados em 2003.

— Aqui, enterramos uma média de 20 corpos por semana. A maioria dos indigentes já chega aqui em estado de decomposição. Em todos esses anos, nunca vi alguém acompanhando o enterro — conta um dos coveiros mais antigos do cemitério, que hoje tem cinco mil covas rasas para indigentes.

Algumas das vítimas podem não ter direito a um nome, mas, segundo seus atestados, deixam filhos. São órfãos de um número. De acordo com Solange Teixeira de Souza, chefe interina do arquivo dos 13 cemitérios da Santa Casa, isso acontece porque muitas famílias chegam a reconhecer as vítimas no IML, mas não têm como provar sua identidade:

— Muitas vezes, as famílias vão ao IML, reconhecem o corpo, mas não fazem o registro em cartório, porque não têm documento do morto. E o cartório não registra o óbito se não tiver um documento. Por isso, em muitos atestados, no lugar do nome consta apenas “um homem” ou “uma mulher” — explica Solange.

Alguns atestados de óbito deixam pistas sobre o indigente, como no caso de três mortes registradas em 16 de abril de 2003 no Hospital do Andaraí. Duas das vítimas tinham nomes, idades e o mesmo endereço: Rua São Miguel 500, na Tijuca. A terceira, que chegou ao hospital com os outros dois, não tinha documentos e morreu sem direito a um nome.

Apesar da quantidade de vítimas, no caso de indigentes, praticamente 100% dos inquéritos ficam restritos à guia de remoção do IML.

A vala comum de travessas e becos cariocas

Os lugares onde morrem os indigentes são, na maioria dos casos, ermos ou pobres. Os corpos, quase sempre em decomposição, chegam a passar dias até serem recolhidos. O levantamento feito pelo GLOBO mostra que, das pessoas assassinadas e enterradas como indigentes ano passado nos cemitérios da Santa Casa de Misericórdia, muitas foram encontradas em becos e travessas dentro de favelas, em terrenos baldios ou às margens de estradas ou da linha férrea.

Algumas dessas vias já são conhecidas pela polícia como locais de desova, como a Estrada do Sumaré, no Rio Comprido; a Rua da Glória, na Favela de Ramos; a Rua Frei Jaboatão, na Favela Parque Proletário, em Bonsucesso; a Rua Leopoldo Bulhões, em Manguinhos; e as ruas Rua Mogiqui e Prefeito Sá Lessa, em Fazenda Botafogo.

Embora os atestados de óbito não indiquem as circunstâncias da morte — tipo de informação presente em inquéritos policiais ou perícias — alguns endereços são claramente locais de confrontos entre quadrilhas ou de bandidos com a polícia, como o Complexo da Maré e favelas da Zona Oeste.

 
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