"All men who have achieved great things
have been great dreamers."
Orison Swett Marden



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Versão em Português

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4th July 2003 l Unknown l O Globo

Versão em português

 

O que eles vão ser quando

Usando um pedaço de carvão como giz e o muro da casa dos tios como um quadro improvisado, as irmãs Mayara, de 7 anos, e Maysa, de 6, desenham um sol, uma árvore carregada de frutos, flores e um coração. No alto, a mais velha escreve: “Mamãe, eu te amo”. A homenagem singela esconde uma realidade trágica. Na tarde de 22 de novembro do ano passado, elas viram a mãe, a recepcionista Mônica Christina Gomes dos Santos, de 28 anos, ser assassinada pelo companheiro com um tiro na nuca, quando preparava o almoço.

Criadas pelos avós numa casa simples da Pavuna, Mayara e Maysa fazem parte de uma estatística dramática: a violência na cidade do Rio deixou em 2003 pelo menos 2.895 órfãos, sendo 83% crianças e adolescentes. Isso representa quase oito pessoas por dia. Os números foram obtidos numa pesquisa feita pelo GLOBO em 49.647 atestados de óbito. Deste total, 3.415 eram de pessoas assassinadas.

Os efeitos da brutalidade estão presentes no dia-a-dia dessas crianças e desses adolescentes. Elis Regina Martins, tia de Mayara e Maysa, conta que depois da tragédia elas se tornaram agressivas e rebeldes. A lembrança da mãe é uma constante.

— Minha mãe era uma pessoa muito boa. Eu sonho com ela quase todos os dias. No sonho, ela sempre me diz para eu não brigar com a minha irm㠗 conta a falante Mayara.

Maysa não consegue esquecer a cena que presenciou na cozinha de sua casa, no momento em que a mãe preparava um hambúrguer para ela:

— Ela prendeu o dedo dele na porta. Mas foi sem querer. Aí ele foi lá dentro, pegou a arma e matou minha mãe.

A tia diz que, na verdade, o motivo do crime foi uma discussão sobre comida. O acusado, que não é pai das meninas, está preso, mas ainda não foi a julgamento. A arma desapareceu:

— Ele alega que estava brincando com a arma e ela disparou acidentalmente. Ora, ninguém brinca assim.

Quando indagadas sobre o que querem ser quando crescer, Mayara e Maysa respondem sem vacilar:

— Advogada — afirma Mayara.

— Professora — emenda Maysa.

Os sonhos dos órfãos da violência podem sobreviver às tragédias, mas, para que eles se concretizem, talvez a realidade de suas vidas tenha de ser reescrita. Enquanto Millena Ângelo de Souza, de 4 anos, abraça a boneca na sala de seu apartamento em Oswaldo Cruz, subúrbio do Rio, a mãe, Eliana Ângelo, de 41 anos, conta o drama da família após o assassinato do marido, o passista da Mangueira Ademir Zeferino de Souza, de 58, o Gargalhada. Ele apareceu morto em 11 de abril de 2003, no Parque do Flamengo, em circunstâncias não esclarecidas. Teria sido golpeado no peito com um furador de gelo.

Com dificuldades para pagar o aluguel da casa em que morava com o marido em Quintino, Eliana se mudou para um apartamento num conjunto habitacional em Oswaldo Cruz. Millena — caçula de Gargalhada, que deixou cinco filhos — teve de trocar de escola. Achocolatados, queijos e frutas, antes abundantes na geladeira, agora são coisas do passado. Jóias e objetos pessoais foram vendidos.

— Minha vida mudou totalmente. No início, tive de pedir dinheiro emprestado até para comprar comida — diz Eliana. — A cada mês, tenho de escolher a conta que não vou pagar.

Aos problemas financeiros se junta a saudade. Eliana conta que Millena não se cansa de falar no pai.

— Outro dia ela me disse: “Mãe, estou muito triste com Papai do Céu. Por que ele não devolve o meu pai?”

Por quê? A pergunta tão freqüente no universo infantil se torna perturbadora nessas horas. A dona-de-casa Tatiana Martins Medeiros, de 23 anos, tenta dar respostas aos filhos Rodrigo, de 6, e Ingrid, de 3. Mas não as encontra nem para ela. O seu marido, o segurança Rogério Costa de Oliveira, de 28 anos, foi assassinado com três tiros em Cascadura em 6 de março do ano passado. A família não sabe o motivo. E nem faz questão de saber. A preocupação agora, diz Tatiana, é com o futuro dos filhos.

— Depois que ele morreu, voltei a estudar para ter algum futuro. Não para mim, mas para os meus filhos.

Rogério estava desempregado e não deixou pensão. Tatiana, também sem emprego, mora com as crianças na casa da sogra, em Cascadura. Tudo ficou mais difícil. Tatiana tirou Rodrigo da escola particular e o matriculou na rede pública. A sogra teve de pegar um empréstimo para não deixar faltar comida para os netos. Mas nem tudo pode ser remediado:

— As crianças perguntam sobre o pai. Para a Ingrid, eu disse que ele está no céu. Com o Rodrigo, sentei e conversei. No Dia dos Pais, ele chegou da escola com um presente e disse: “Mãe, vou dar o presente para o meu avô. Eu não tenho mais pai.”

O sentimento de perda e as dificuldades financeiras afligem também a dona-de-casa Jaqueline da Silva Gomes, de 29 anos, e seus três filhos: Fernanda, de 10, Daniele, de 4, e Luís Tiago, de 2. Em 15 de junho do ano passado, o pai das crianças, o soldado-bombeiro Luiz Fernando de Oliveira Gomes, de 31 anos, foi assassinado a tiros na entrada de um hotel em Jacarepaguá, durante uma provável tentativa de assalto. Depois da morte do marido, Jaqueline alugou parte de sua casa, numa área pobre da Taquara, em Jacarepaguá, para complementar a pensão:

— Um ano depois, eu ainda me pergunto: será que é um pesadelo?

Fernanda, a filha mais velha, lembra-se com carinho do pai. Conta que, numa de suas brincadeiras, ele apagava a luz e saía com uma lanterna à procura das crianças. A imagem do pai é tão forte que alimenta o seu sonho:

— Quero ser bombeiro. Como meu pai.

Um dos casos que expuseram ao público o sofrimento dos órfãos da violência ficou conhecido pelo nome de Flor de Liz. Moradora da Favela Três Pontes, em Santa Cruz, Flor de Liz de Souza, de 30 anos, foi fuzilada na frente dos três filhos por dois homens que invadiram sua casa em 22 de janeiro passado. O motivo? Ela ocupava um imóvel que antes pertencia a traficantes da quadrilha inimiga. A pequena A., de 6 anos, cobriu o corpo da mãe com um cobertor. Em seguida, abraçou a irmã B., de 5, e o irmão C., de 8, e, chorando, foi buscar ajuda na casa de uma vizinha. As imagens da dor das crianças marcaram o noticiário sobre a chacina de nove pessoas durante uma guerra do tráfico. Cinco meses depois, em razão de dificuldades financeiras e de um problema de saúde da avó, as crianças estão separadas e só se encontram a cada 15 dias.

— Estou perdendo a memória. A psicóloga diz que eu tenho que esquecer o que vi. Eu chorava muito, mas a minha avó disse que, quando eu choro, minha mãe fica triste — afirma o filho de 8 anos.

O menino fica confuso quando o assunto é justiça. Testemunha da morte da própria mãe, ele prefere repetir o que a avó lhe ensinou:

— Deixo para Deus.

Indagado sobre o que espera de Deus, ele é rápido:

— Que devolva minha mãe.

Sobre o futuro, o menino tem um sonho e uma certeza:

— Quero ser jogador de futebol. E vou reunir toda a minha família outra vez.

Eduardo Decorte jamais imaginou tornar-se pai aos 23 anos, mas o tiro que matou sua mãe, a analista de sistemas Sandra Ramos Decorte, de 48 anos, resvalou em seu futuro e no de seus irmãos, Rodrigo, de 7 anos, e Leonardo, de 21, mudando radicalmente a sua vida:

— Tornei-me pai do meu irmão de 7 anos e hoje nós três estamos mais unidos do que nunca. Eu estudo muito e trabalho. Sou muito mais caseiro e à noite aproveito para brincar com Rodrigo e cobrar dele as lições da escola. Ano passado, em meio àquela crise, estudamos juntos para que ele pudesse passar para uma escola de qualidade. Ele passou e fiquei muito orgulhoso.

Ao falar sobre a morte da mãe, Eduardo diz que a tragédia o levou a escolher outra carreira:

— Estudo direito e queria seguir carreira pública na Justiça, mas desisti. Estou estudando para o Instituto Rio Branco. Não seria um bom juiz porque sempre me lembraria da minha mãe e me tornaria um justiceiro. Acho que julgaria pensando em vingança.

Leonardo também mudou seu jeito de pensar:

— Eu não penso mais em futuro. Minha mãe estava cheia de planos e morreu. Hoje, para mim, a vida é agora.

A qualidade da vida dos três também caiu muito:

— Nós morávamos numa casa com quatro quartos e hoje vivemos em dois. A pensão da minha mãe não é suficiente e eu e meu irmão trabalhamos para ajudar nas contas da casa — afirma Eduardo.

Do banco da Kombi para o abrigo municipal


Há seis anos, o adolescente Arnaldo Castro Rodrigues Júnior, de 15 anos, luta bravamente para fugir do abismo em que foi jogado depois do assassinato de seu pai, em 1998. Do crime, ele tem uma vaga lembrança. Diz que o pai trabalhava na Petrobras e foi morto em Quintino, perto de uma escola:

— Minha família era o meu pai.

De início, foi acolhido pelo padrinho. Depois, conseguiu localizar a mãe e passou a morar com ela. Mas o que parecia uma solução se transformou num problema. Desprezado pela mãe, preferiu viver na rua. Um conhecido da família lhe deu emprego como cobrador de Kombi. Ele dormia no banco do carro. A cena comoveu uma senhora, que decidiu levá-lo ao Conselho Tutelar de Marechal Hermes. Em janeiro deste ano, Arnaldo chegou ao Centro Municipal de Assistência Social Integrada (Cemasi) Nelson Carneiro, em Ramos, onde vive hoje.

As assistentes sociais dizem que ele é um bom menino. Depois que foi para o abrigo, Arnaldo, que estudou até a 5série, começou a ter aulas de inglês na Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) e a fazer cursos profissionalizantes num quartel da Aeronáutica. Ele sonha ser jogador de futebol ou fuzileiro naval. Num futuro mais próximo, deseja apenas um emprego.

— Se eu estiver trabalhando, quem sabe meus parentes me aceitem. Assim, eles não vão me ver como um vagabundo — diz Arnaldo.

Ao tomar conhecimento da pesquisa do GLOBO, o juiz da 1 Vara da Infância e da Juventude, Siro Darlan, ressaltou a importância da solidariedade das famílias na vida dos órfãos.

— Como o número de crianças e jovens em abrigos ou nas ruas não aumentou muito, acredito que parentes mais distantes tenham acolhido esses órfãos, numa importante demonstração de solidariedade. Essas crianças que trabalham em sinais ou fazem pequenos biscates para ajudar a família depois que os pais morrem são heróis da resistência. Eles fizeram uma opção pelo bem — afirma o juiz.

 
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