"All men who have achieved great things
have been great dreamers."
Orison Swett Marden



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27th June 2003 l Unknown l O Globo

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Como nascem os bárbaros


Quando ouviu pela primeira vez, em janeiro passado, a história de Chapeuzinho Vermelho, A., de 9 anos, já estava no tráfico de drogas havia dois anos e fora apanhado durante uma tentativa de assalto, sendo levado para um abrigo. Ele é uma das muitas crianças cujos pais foram assassinados pelo tráfico. Agora, correm o risco de se tornarem novos “soldados” da guerra entre quadrilhas.

Para evitar que A. tenha o mesmo destino de outros jovens — como o traficante Luciano Barbosa Silva, o Lulu, chefe do tráfico da Rocinha morto aos 26 anos, durante confronto com a polícia, em 14 de abril passado — o projeto Restaurando a Esperança/ Psiquiatria Infantil Sem Paredes, do Departamento Materno-Infantil da Universidade Federal Fluminense, tenta recuperar a dignidade e a infância que essas crianças perderam. O programa está sendo realizado em parceria com o Instituto de Pesquisas Heloísa Marinho, a Fundação para a Infância e a Adolescência (FIA) e as Varas da Infância e da Juventude de Niterói e São Gonçalo.

Lulu não teve muita escolha: ele tinha apenas 8 anos quando seu irmão Cassiano Barbosa, que herdara os pontos de venda de droga do tio, o traficante Leandro Denir da Silva, o Denis, morreu em confronto com traficantes. Seu maior inimigo na guerra da Rocinha, Eduíno Eustáquio, o Dudu, conhecido por suas atrocidades, foi mais uma criança criada no tráfico de drogas. Ele é afilhado de Adilson Balbino, ligado a uma facção criminosa e dono das “bocas-de-fumo” do Morro de São Carlos. Balbino foi executado com dez tiros por inimigos em 2003.

Pesquisa do Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (IBISS), realizada com 5.442 menores que trabalham para o tráfico de drogas em 232 favelas do Rio, revelou que de cada 14 crianças ou adolescentes envolvidos, um é filho de pais mortos pelo tráfico. A situação é ainda pior entre os mais jovens. Um em cada oito meninos de 10 anos que vivem em “bocas-de-fumo” teve os pais executados nessa guerra.

Esses órfãos formam hoje um exército de desamparados e muitas vezes acabam seguindo o mesmo destino de seus parentes.

— É uma transmissão transgeracional, que não é reproduzida pelo caráter biológico, mas pelo processo social. O que existe é uma contaminação intrafamiliar. Elas vivem nas mesmas condições em que os pais viveram — explica o psiquiatra Jairo Werner, coordenador do programa que visa a recuperar crianças e adolescentes, dando-lhes uma nova chance de convívio social.

Programa ajuda a tirar crianças do tráfico de drogas

O “Mapeamento Exploração do Trabalho Infantil no Tráfico”, que teve início em 2001, como parte do programa Soldados Nunca Mais, foi o primeiro censo realizado sobre o envolvimento de jovens no tráfico e incluiu as zonas Sul e Centro e os bairros de Tijuca, Jacarepaguá, Penha, Maré, Madureira, Bangu, Santa Cruz e Costa Barros, além da Baixada Fluminense.

Segundo o diretor-executivo do IBISS, Nanko van Buuren, muitos desses jovens são levados ao crime por revolta:

— São crianças frustradas, revoltadas, que sofrem pela perda dos pais e ao mesmo tempo precisam dessa adrenalina para esquecer. Precisam vivenciar o perigo. Mas se fossem dadas outras formas de adrenalina para essas crianças, com certeza não estariam no tráfico — afirma Nanko, lembrando que o programa Soldados Nunca Mais já retirou muitos jovens do crime, dando-lhes novos desafios e oportunidades:

— E muitos deles trabalharam na pesquisa para o Mapeamento.

Um dos casos que estão sendo tratados pelo projeto Restaurando a Esperança mostra como nasce essa revolta: C., de 7 anos, e suas irmãs viram a mãe ser tirada de casa, enforcada e depois ter o corpo incendiado. O trauma provocou lapsos de memória. Às vezes, as lembranças voltam de repente. Enquanto falava de seu sonho de ser o Batman e de ter um monte de bonecos, C. disparou:

— Minha mãe morreu.

Segundo Jairo Werner, a revolta e a falta de oportunidades acabam agravando o problema:

— Eles são mais rebeldes, têm problemas na escola. Resistem a se submeter a uma subalternidade e acabam subalternos do tráfico. Para mudar esse quadro, é necessário que os jovens tenham acesso aos mesmos direitos de outros jovens de outras classes sociais, as mesmas oportunidades. O problema não envolve só a questão psicológica, passa pelo social, cultural e econômico — afirma o médico.

Há cinco anos trabalhando na Promotoria da II Vara da Infância e da Juventude, uma funcionária do Juizado (que por motivos de segurança pediu para não ser identificada) contou que, na maioria dos casos, os infratores são vítimas de abandono:

— Quando cheguei aqui fiquei chocada. Ouço todo dia as mesmas histórias, mas isso não é normal. Em quase todos os casos, os jovens dizem que fugiram de casa porque eram espancados por pais viciados ou alcoólatras. Outros perderam seus pais na guerra do tráfico. De certa forma, são todos órfãos.

Segundo ela, as crianças falam pouco porque têm medo de serem assassinadas por outros integrantes da quadrilha.

— Eles dizem que o tráfico os protege, mas nunca vi um advogado por aqui. Eles estão abandonados à própria sorte e têm horror inclusive de serem presos. Outro dia, um deles simplesmente se atirou contra a janela, quebrando a vidraça e caindo do quarto andar do prédio.

O futuro de muitos desses jovens é herdar o “negócio” do pai ou de outros parentes, como aconteceu com os irmãos gêmeos Tiago e Diogo. Filhos do traficante Zé Gordo, eles assumiram a venda de drogas na Favela Parque União, no Complexo da Maré, após a morte do pai. O filho do traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, também assumiu a “boca-de-fumo” em Vigário Geral, uma das favelas dominadas pela facção criminosa do pai, que está preso em Bangu 1.

— Os traficantes mais ricos, como Fernandinho Beira-Mar, mantêm os filhos longe do tráfico. Os filhos de traficantes menos abastados acabam entrando para o crime — afirma a
coordenadora de Inteligência da Polícia Civil, inspetora Marina Maggessi.

Infância e futuro ameaçados pela violência

Há duas coisas irremediavelmente iguais na história dessas crianças e jovens: eles passaram por violentas perdas e têm um futuro incerto. Mesmo com a revolta quase que impregnada no corpo, eles são capazes de abrir um largo sorriso toda vez que o assunto toma o rumo da brincadeira ou dos sonhos que, como crianças, ainda são capazes de ter.

A., de 11 anos, por exemplo, sonha em viver num mundo com menos armas. De aniversário, ele queria dois presentes: um telefone celular e reencontrar o pai, que abandonou a família, pouco antes de sua mãe, envolvida no tráfico, ser executada.

— Eu quero um celular porque todos meus amigos têm. E seria muito legal rever meu pai e conhecer meus outros irmãos— afirma A., abrindo logo o sorriso.

Criado por três irmãos também envolvidos com drogas, A. chegou a ter computador, som e brinquedos. Mas, segundo ele, um bandido assassinou um dos irmãos. A polícia matou o outro. O terceiro cumpre pena em presídio.

— Eu gostava muito dos meus irmãos. Sonho muito com eles. Eu não gosto dos homens que mataram eles — explica, falando mais baixo e olhando para os lados, desconfiado.

A tia de A. também tem medo. Eles moram na mesma favela e seu filho, de 16 anos, que viu o primo morrer, também quer se envolver com as drogas:

— Ele diz que é uma forma de não pensar, de esquecer. É sempre essa maldita droga — conta a mulher.

B., de 11 anos, teve o pai assassinado, confundido com outro traficante dentro da favela. A avó é quem cria o menino e luta para impedir que ele entre para o tráfico:

— Eu tento impedir, mas ele está sempre escapando. Tenho medo, porque bem em frente à nossa casa existem meninos cheirando cocaína e fumando maconha. Volta e meia, ele está conversando com eles e ouvindo suas aventuras. É difícil mantê-lo longe disso, mesmo estando na escola.

 
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