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A morte no caminho da miséria
O lanterneiro Josué da Silva Duarte, de 30 anos, voltava da festa de Ano Novo, nos primeiros minutos de 2003, quando cruzou com a morte numa esquina perto de sua casa, em Vilar Carioca, Campo Grande, Zona Oeste do Rio. Ele pegara emprestado o carro do irmão para deixar os seis filhos e a mulher grávida em casa e retornava para devolver o veículo, sem saber que a favela havia sido ocupada por uma quadrilha. O carro era vermelho, da cor da facção inimiga. Josué foi torturado para dar o nome e o esconderijo de traficantes que ele nunca conheceu. Morreu com vários tiros, a cem metros de casa. De uma família de religiosos, Linalva, de 36 anos, e os filhos ouviram os tiros, mas custaram a acreditar no que gritava a vizinha:
— Mataram Josué!
O destino de Josué se confunde com o de muitos jovens que morrem em Vilar Carioca, um dos lugares mais violentos de Campo Grande, bairro mais sangrento da cidade, segundo levantamento feito pelo GLOBO com base em 3.415 atestados de óbito de pessoas assassinadas em 2003. Em números absolutos, Campo Grande registrou ano passado pelo menos 161 homicídios, sendo seguido de Santa Cruz, com 128, e Bangu, com 105, todos na Zona Oeste. Nos bairros de Bonsucesso, Olaria, Ramos e Penha, onde ficam os complexos da Maré, da Penha e do Alemão, na Zona da Leopoldina, houve 170 mortes. Esses números referem-se apenas aos crimes por arma de fogo ou dilacerações com instrumentos perfurocortantes. Não estão contabilizadas as mortes por espancamento, muito freqüentes nesses lugares.
Pesquisa mostra que maioria das vítimas morreu perto de casa
O grande número de assassinatos na Zona Oeste, com seus corredores de morte, levou a Secretaria de Segurança a criar a Divisão de Homicídios Oeste (DHO). O esforço não foi bastante para reduzir o número de mortes. Só em abril foram 22 casos em Campo Grande, 12 em Bangu e dez em Santa Cruz, segundo estatísticas oficiais.
A violência nesses lugares é inversamente proporcional à qualidade de vida de seus moradores. No ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), calculado pelo Instituto Pereira Passos, Campo Grande, que registrou o maior número de homicídios pelo levantamento do GLOBO, ocupa o 82 lugar num total de 126 bairros. Enquanto isso, na Gávea, maior IDH do Rio, houve dois homicídios.
A pesquisa mostra ainda que 52% das vítimas morreram na rua ou no bairro em que moravam. Boa parte do restante morreu em bairros vizinhos.
Miséria e violência percorrem as mesmas ruas de Campo Grande, onde moradores da região central do bairro e policiais citam Inhoaíba e Vilar Carioca como áreas ainda mais perigosas que a média da região.
Há três anos na presidência da Associação de Moradores de Vilar Carioca, Conceição Rangel conta que, depois de muita luta, a comunidade conseguiu calçar as 126 ruas onde vivem 20 mil pessoas em 3.980 lotes. Mas não teve sucesso em deter a violência:
— Os crimes ocorrem geralmente à noite. A verdade é que esses jovens não têm qualquer esperança. Não venham me dizer que eles estão se matando porque querem roupas de grife ou sapatos novos. Eles não têm nada disso. Andam descalços e são pobres. A culpa de tanta miséria e violência é do poder público, que abandona esses jovens à sua própria sorte.
Um abandono que se reflete também nas vítimas. Ainda muito abatida pela morte do marido, Linalva desistiu de deixar Vilar Carioca:
— Para onde eu iria com sete filhos? Os parentes me disseram para eu me acalmar e ficar por aqui mesmo. No bairro, pelo menos, as crianças têm escola e nós estamos perto do resto da família — diz Linalva.
Para manter as crianças, ela conta com R$ 100 do Cheque-Cidadão e R$ 15 do Bolsa-Escola. Trabalhar fora é impossível. O filho Josué, que o marido não conheceu, tem só 10 meses:
— É uma escadinha. O mais velho tem 14 anos e, junto com o de 12, ajuda a tomar conta do resto — conta Linalva, que hoje mora numa casa emprestada por um vizinho.
Futuro, para ela, é pensar no que eles vão comer no dia seguinte:
— A família sempre ajuda com um quilo de feijão, farinha — diz.
As crianças guardam lembranças carinhosas do pai, que as ensinou a soltar pipa e a andar de cavalo.
— No dia, não tive coragem de ver meu pai. Quando a vizinha disse que ele tinha morrido, ficamos todos aqui rezando — conta Rafael.
Além de Rafael, de 14 anos, a família é formada por Elias, de 12; David, de 7; Ivanilson, de 5; Ruth, de 9, que, quando não está na escola, ajuda a cuidar da irmã Adrielle, de 2, enquanto a mãe toma conta do caçula, Josué, de 10 meses. A maior diversão da família é a missa de domingo.
— No início, fiquei muito desorientada. Até mesmo a Igreja eu abandonei. Mas tenho eles para cuidar. E eles são a minha vida — afirma Linalva, que evita falar sobre o crime.
O levantamento revelou que em um terço dos casos de homicídio pesquisados os locais de morte informados nas certidões são hospitais, em geral da rede pública. O Carlos Chagas, em Marechal Hermes, foi citado como lugar de óbito em 232 casos.
No nome das ruas, o sonho de uma vida melhor e menos violenta
Foi na Rua das Boas Vindas 950, próximo ao depósito de lixo da Comlurb, no Caju, que o jovem Fábio Gomes Alves, de 22 anos, encontrou a morte: ele foi assassinado com vários tiros em 9 de junho do ano passado. Fábio morava na Rua Laurindo Rabelo, próximo ao Morro de São Carlos, no Estácio. Os nomes das ruas onde viviam as vítimas revelam a distância entre a realidade dessas pessoas e a utopia de uma vida melhor.
Como boa parte das ruas localizadas em favelas, a Boas Vindas não consta do cadastro de logradouros da Secretaria municipal de Urbanismo. Muitas delas têm nomes dados pelos próprios moradores e refletem o desejo de uma vida de paz, muito diferente da realidade marcada por tiros.
O porteiro Rhonays da Silva Alves, de 23 anos, foi morto com um tiro na cabeça, em 23 de setembro do ano passado, no Morro Dona Marta. Ele morava na Rua da Tranqüilidade, na mesma favela. José de Jesus Santos Filho, de 20 anos, foi assassinado em 6 de janeiro de 2003 no subúrbio de Costa Barros. O seu endereço: Rua Bem Feliz 6. As ruas também não fazem parte do cadastro oficial.
Nesta realidade perversa, uma das ruas que dão acesso ao Cemitério de Santa Cruz tem um nome revelador: Rua da Verdade.
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