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Morro e asfalto se unem contra a violência do tráfico de drogas
“A Rocinha ficou dormindo por mais de dez anos, como numa lenda. Para os moradores acordarem, precisou daquela tragédia. Foi através da desgraça que a Rocinha acordou.”
O autor da metáfora é Lino Santos Filho, 52 anos, vice-presidente da Associação de Moradores da Rocinha, mais conhecido como Tio Lino, que há mais de 20 anos “faz a cabeça” de crianças e adolescentes da comunidade através da arte. “Já tirei muito garoto do tráfico”, diz o veterano da associação. “A turma aqui é jovem, tudo garotada, o único coroa sou eu”, brinca.
Tio Lino acompanhou a mobilização da comunidade nos anos 70 contra a remoção, que era a grande preocupação na época. Com a conquista do direito de permanecer no morro Dois Irmãos, a vida seguiu em frente, mas na visão de Lino, a comunidade (e toda a sociedade) parece ter dormido no ponto. Quando acordou, o território conquistado estava dominado por violentas gangues armadas que se alternam no poder, determinando as regras de sobrevivência e movimentando milhões de reais na venda de maconha e cocaína.
A tragédia
Durante o feriado da Semana Santa, no início de abril, a violência do tráfico de drogas do Rio de Janeiro deixou a cidade em estado de choque. Numa operação que já era prevista pela polícia e temida pelos moradores da favela da Rocinha, considerada a maior da América Latina, traficantes de uma facção rival tentaram tomar o controle dos pontos de venda de drogas e espalharam o terror dentro e nos arredores da comunidade. Foram dez mortos em quatro dias. Entre eles, trabalhadores moradores da comunidade, policiais, traficantes e uma moradora de São Conrado, bairro de classe média alta vizinho da favela, que passou de carro no momento em que o grupo de traficantes se preparava para a invasão. Lojas e escolas fecharam durante uma semana, a rotina de quem mora ou trabalha nas áreas próximas foi alterada e praticamente todos os setores da sociedade se manifestaram sobre o episódio.
Nos primeiros dias após o conflito, as manchetes dos jornais refletiram a sensação dos cariocas quando falavam em “caos” e em “guerra civil não declarada”. Aos poucos, o medo e a sensação de impotência foram dando lugar a reflexões acerca das raízes do problema e, correndo por fora do ‘jogo de empurra’ dos governos, a sociedade civil passou à reação.
Duas faces do Dois Irmãos
Dois Irmãos é o nome de um morro de 533 metros de altitude, cartão postal do Rio, de onde se vê praias famosas como Ipanema e Arpoador, a estátua do Cristo Redentor e outras paisagens da Cidade Maravilhosa. O Túnel Dois Irmãos atravessa o morro ligando os bairros Leblon e São Conrado, onde vive boa parte da elite carioca. No mesmo morro estão amontoadas as cerca de 127 mil casas e barracos da Rocinha.
“Por ser a Rocinha, que está no coração da Zona Sul, área nobre da cidade, onde o conflito interrompe o trânsito e ameaça a elite, o impacto e a reação foram muito maiores do que nas outras comunidades onde essa violência é rotineira”, comenta Rubem César Fernandes, antropólogo e coordenador do Viva Rio.
Depois da ocupação da favela por mais de 900 policiais e da sugestão do Vice-Governador do estado de cercá-la com um muro de três metros de altura para conter sua expansão, a resposta mais rápida e efetiva ao conflito foi a criação do Fórum Dois Irmãos, iniciativa da Associação de Moradores da Rocinha, que para discutir as possíveis soluções para o problema convocou seus “vizinhos ricos” e representantes de diversas camadas da sociedade.
Os incomodados se unem
A idéia era criar um diálogo entre moradores da Rocinha e dos outros bairros afetados: São Conrado, Gávea e Leblon. Às Associações de Moradores logo se uniram instituições de peso da região, como a Pontifícia Universidade Católica (PUC), o Shopping São Conrado Fashion Mall, entidades privadas e religiosas. Os reforços de possíveis investidores para os projetos vindouros vieram em seguida: Fundação Roberto Marinho, Instituto Unibanco, Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa). O Viva Rio, que já vinha apoiando a Associação de Moradores da Rocinha antes do conflito, ficou como ponto de referência, como explica Rubem César: “Nós entramos na condição de mediadores, porque o Viva Rio tem essa posição de poder negociar. No nosso conselho tem gente da favela e gente da elite. Nós conseguimos sentar para conversar com o secretário de segurança, com o chefe da polícia. As lideranças comunitárias estão muito fragilizadas por causa do tráfico, se eles falam mal da polícia as pessoas já acham que estão defendendo os bandidos. Então nós podemos aproximar as associações, o mercado, as instituições e o governo.”
Juventude é prioridade
Na primeira reunião do Fórum ficou claro que as propostas emergenciais têm foco sobre os adolescentes que, fora da escola e sem acesso ao mercado formal de trabalho, acabam vulneráveis ao recrutamento pelo tráfico de drogas. Os primeiros projetos apresentados foram na área da educação.
“Hoje em dia a maioria das crianças entra na escola mas sai na adolescência, a evasão escolar típica acontece entre a quarta e quinta séries. Então nós temos muita clareza de que o público alvo desses projetos, o grupo de risco, são adolescentes e jovens que saíram da escola antes de terminar o ensino fundamental”, afirma Rubem.
Foram oferecidos dois cursos, um de alfabetização para cinco mil jovens e adultos (a partir de 15 anos), projeto da Firjan, e outro de ensino médio (equivalente ao segundo grau), com dez turmas do Telecurso Comunidade, projeto da Fundação Roberto Marinho em parceria com o Instituto Unibanco e o Viva Rio, que deve beneficiar mais 300 jovens. Um programa de cursos pré-vestibulares, oferecido pelo Colégio Teresiano, também está sendo planejado.
A grande vantagem desses cursos é que eles acontecerão dentro da comunidade. “É muito penoso para um jovem ter que sair às 5 horas da manhã para estudar lá longe”, lembra Tânia Rodrigues, moradora e presidente da ONG Rocinha 21. A educação, na avaliação de Tânia, é prioridade porque abre portas para o emprego e ajuda a resgatar os valores dos jovens. “Eu acredito na transformação através da educação”, conclui.
Desafios da Rocinha
Segundo a Delegacia de Repressão a Entorpecentes, o negócio das drogas movimenta, só nos morros da Rocinha, da Mangueira e do Dendê, cerca de R$ 50 milhões por mês. A renda per capita média na Rocinha é de R$ 219 por mês e 21,89% da população da favela, de acordo com pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, ganha menos de R$ 79 por mês, estando abaixo da linha de pobreza estabelecida pelo estudo. A taxa de escolaridade da Rocinha é a mais baixa das 32 regiões administrativas do município do Rio.
Os desafios vão muito além da educação e da geração de emprego e renda. A favela está cheia de valas negras, a maior parte das habitações é irregular e faltam postos de saúde, entre outros problemas. Mas os moradores, bem acordados, não pretendem cochilar mais:
“A comunidade está animada. O que aconteceu serviu de alerta para uma porção de gente. Sentimos que a sociedade está querendo o melhor”, anima-se Tânia. “O que a gente quer saber é se isso vai ser para valer ou se é coisa passageira”, pondera Tio Lino. No que depender da vontade e da organização dos moradores, a Rocinha não pára mais de melhorar. Resta saber se os outros setores da sociedade também vão se manter envolvidos e se os governos farão sua parte.
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