“Um sonho sonhado sozinho é um sonho.
Um sonho sonhado junto é realidade.”
Raul Seixas

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Fundo Alice Mulready para Bolsas de Estudo


 
Alice B. Mulready
 

“ É com grande satisfação que anunciamos a criação do Fundo Memorial Alice Mulready para financiar bolsas de estudo, em memória de minha mãe que faleceu subitamente em 11 de julho de 2007.

Com as primeiras doações (aprox. US$ 17,470.00 até hoje - fev 2008) a Dreams Can Be ajudará uma jovem do Rio de Janeiro a realizar seu sonho de toda uma vida – se tornar médica. Eliene Nascimento Santiago será a primeira a receber recursos para seus estudos. Esta bolsa representa para ela um imenso incentivo e forte apoio. Esperamos que vocês possam compartilhar da alegria e do contentamento, que a sua ajuda poderá proporcionar, realizando o sonho de Eliene através do legado de minha mãe.”

Lisa Urgo – Presidente e Fundadora
Setembro 2007
 

Eliene nasceu em 1977 e perdeu seu pai num grave acidente de carro, quando tinha apenas quatro anos de idade. Ficaram ela, sua mãe, e dois irmãos menores. Eliene teve que se esforçar bastante, (como é para a maioria das criancas pobres no Brasil) para conseguir concluir o ensino fundamental. “Minha mãe, apesar de todas as dificuldades , priorizou sempre a nossa educação. Tinhamos poucas roupas mas tinhamos muitos livros e frequentamos boas escolas. Minha mãe conseguia bolsas de estudo e éramos boas alunas” explica Eliene.

“Precisei sair da escola com 16 anos para poder trabalhar em tempo integral e ajudar no sustento da nossa família. Quando estava com 20 anos me esforcei bastante para voltar a estudar pois queria completar o ensino médio. Então fiz um curso intensivo para ter o diploma. Trabalhava em tempo integral e estudava à noite. Foi muito difícil! Eu ficava muito cansada e muitas vezes pegava no sono em sala de aula. Nessa época, eu morava longe do trabalho e da escola e precisava pegar dois ônibus pra chegar em casa à noite. Costumava chegar em casa por volta de meia-noite. Finalmente conclui o ensino médio em 1998 com 21 anos.”

Nos anos seguintes, Eliene fez cursos de computação, trabalhou como voluntária em consultórios médicos e batalhou para um futuro – sonhos X realidade – conforme iam se passando os anos e também sua juventude, ela sempre era atraída de volta para a área médica onde sonhava atuar um dia. Ela desejava ser médica para “servir”, para “salvar” – ela batalhava com seu desejo e com todas as difuculdades inerentes a uma jovem mulher brasileira, ser bem sucedida tendo vindo de onde veio. É quase impossível para uma menina pobre ingressar na carreira da medicina – faltam oportunidades e os custos são muito elevados. Estava tão distante de seu alcance que muitas vezes ela pensou que nunca conseguiria realizar seu “sonho impossível” de ser médica.

No ano 2000, com 23 anos, Eliene conseguiu um trabalho como auxiliar no consultório médico de um obstetra e – “foi quando conheci meu primeiro anjo da guarda! Fiz amizade com o obstetra e todos os dias eu pedia para observar seus procedimentos, as cirurgias, os partos...Falei pra ele do meu sonho e das minhas dificuldades financeiras. Ele conversava muito comigo e me fez prometer que eu não desistiria do meu sonho. Eu assisti muitas cirurgias e ele me explicava tudo, os procedimentos, as técnicas, ensinando como se eu fosse uma estudante de medicina.”

“Em 2001 comecei a estudar para o exame vestibular para tentar uma vaga para a universidade. Quando tomei conhecimento da enorme competição por um vaga na medicina decidi tentar uma segunda opção (se suas notas não forem altas o bastante para entrar na medicina, pode-se escolher outra área), e eu escolhi Administação de Empresas. Passei para a UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) – uma ótima universidade pública. Cursei por apenas dois semestres e percebi que estava detestando...e era uma das piores alunas. Conversei com o professor e ele disse – ‘Graças a Deus que você decidiu logo, pois tem muitos que fazem o curso todo, só porque não pagam, e no final se tornam péssimos profissionais’.”

“Então voltei a estudar para tentar ingressar na Medicina. Era 2003. Estudei durante três anos e fiz provas para todas as universidades públicas (que são as melhores) do Brasil. Meu problema era que eu precisava trabalhar em tempo integral e com isso não sobrava tempo pra estudar bastante, e passei muitos anos tentando.”

“Minha mãe é faxineira. Ela arrumou um trabalho limpando a casa de um homem chamado Scott Wood, ‘um anjo’. Ele ficou sabendo da minha história e comprou vários livros, me deu uma cadeira (porque a minha dava dor nas costas), e me deu também uma luminária.”

“Segui com meus estudos e então, Deus colocou mais um anjo na minha vida – uma professora chamada Patrícia – ela compreendeu meus sonhos e se ofereceu para me ensinar em casa. Ela é uma ótima professora! Eu pagava uma pequena quantia e às vezes nem podia pagar nada. Me tornei um desafio para ela, uma missão, e ela tinha orgulho de mim e de estar me ajudando.”

“Ela foi a primeira pessoa com quem falei depois de todas as tentativas de passar em todas as provas. Um dia em julho de 2005, fiz uma prova para uma universidade de São Paulo, segundo a promessa de um tio meu, de que, se eu fosse aprovada ele pagaria meu estudo. Estava com 29 anos e não tinha mais muito tempo para tantas tentativas. Em janeiro de 2006 eu finalmente passei para a Universidade da Cidade de São Paulo (UNICID). Fiquei tao feliz que chorei muito! Fui então pra São Paulo pra começar a realizar meu sonho. As aulas começaram em fevereiro de 2006. Adorei as aulas, estudava o dia todo e tirava ótimas notas. Morava num dormitório com seis moças e pagava R$50 (aprox. U$25) por mês e fazia as refeições na faculdade porque era mais barato. Finalmente eu sentia estar no lugar certo.”

“Em outubro de 2006, com somente 9 meses de curso, meu tio adoeceu e veio a falecer. Eu estava só no segundo semestre de aulas e precisava terminá-lo mesmo sem dinheiro. Tive que sair da Universidade. Em março de 2007 o ‘anjo’ Scott me ajudou novamente, enviou-me dinheiro para pagar o que eu estava devendo à universidade, para que pudessem liberar a minha documentação. Foi nesta fase que conheci a Dreams Can Be.”

“Com o dinheiro da Bolsa de Estudo oferecida, pude voltar para uma universidade particular no Rio de Janeiro e estudar para ingressar numa Universidade Pública – Estou super feliz de estar estudando de novo e amando cada minuto. Nunca vou desistir! Fiz esta promessa a mim mesma, àquele primeiro médico que me ajudou e a Deus! Não sei explicar mas sempre senti que Deus estava do meu lado.”

 
Eliene Nascimento Santiago
Universidade Unigranrio - RJ
Setembro 2007
 

Tom Mulready (viúvo de Alice) e Eliene no escritório da Dreams -
Rio de Janeiro - 08 de Janeiro de 2008




Alice B. Mulready

“Nos alegramos, pois apesar de não te-la mais entre nós,
continuaremos a ver o seu sorriso no sorriso de vocês
Vamos sentir a sua compaixão, o seu amor,
Seu senso de humor,
E tudo que fazia Alice ser Alice
Através de cada um de vocês
Ela estará viva através de cada um de vocês
Se apenas vocês permitirem isto a ela”

Padre Sal Ruggeri no discurso do funeral de Alice Mulready